Por Alex Camillo*
O domingo no Brasil foi de luto diante da morte de 231 jovens como resultado de um incêndio em uma boate na cidade de Santa Maria/RS. O assunto dominou as redes sociais. Segundo o site da revista Veja, citando o relatório do site Topsy, foram mais de um milhão de postagens, entre mensagens de condolências, apoio, compartilhamento de notícias, pedidos de ajuda (doações de sangue, água, medicamentos) e voluntariado (profissionais de saúde, psicólogos), e, ainda, uma “cobertura” paralela dos eventos, com vídeos amadores – imagens fortes – e fotos.
A comoção foi tanta, que assim como muitos postaram mensagens de solidariedade, outros tantos postaram mensagens de indignação com o ocorrido, escolhendo culpados – ninguém ficou indiferente. Muitos famosos, brasileiros e estrangeiros, mandaram mensagens de apoio.
Como nem tudo são flores, infelizmente, muita gente insensível e sem noção se aproveita da ocasião para fazer um “merchan”: por exemplo, procurando pela “hashtag” #santamaria no Instagram, é possível encontrar fotos completamente desvinculadas do episódio; em outras redes, como Facebook e Twitter, alguns demostraram falta de sentimento e começaram a “trollar” sobre o ocorrido, com piadas de todos os tipos, comentários maldosos, humor negro e até promoção de ideologias, como foi o caso da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que publicou em sua fanpage uma foto de corpos empilhados com os dizeres: “Deus, cadê você, cara?”. Depois de se vangloriar de alcançar os trending topics do twitter, os administradores da página retiraram a imagem horas depois, por causa da revolta e das reações negativas que causou até mesmo entre os ateus assinantes da página, que bem apontaram que ser ateu não implica em ser insensível e desrespeitoso, e que uma tragédia não pode ser vista como oportunidade para fazer proselitismo.
Também algumas pessoas de diversas denominações religiosas insinuaram que a tragédia poderia ter sido “castigo de Deus”, pois os jovens estavam em uma boate, “bebendo e na promiscuidade”, em vez de estarem em casa ou na Igreja. A exemplo do post da ATEA, tais declarações de pessoas religiosas foram fortemente combatidas por seus pares, pessoas igualmente religiosas, que apontaram o erro, a incorerência e a insensibilidade de tais declarações, em comentários no Facebook ou em posts de blogs endereçados ao público religioso (como este).
Houve também uma tremenda bola fora por parte de uma grande empresa que foi a Rede Globo. A emissora utilizou seu perfil no twitter para uma ação de marketing que foi mal recebida por internautas do Brasil inteiro. A emissora postou uma mensagem convidando os seus seguidores a criarem uma lápide virtual como parte da promoção da nova série “Pé na Cova”. Provavelmente um tuíte programado para o fim de semana, mas que diante das circunstâncias, pegou muito mal, levando a emissora a tormar a decisão de vir a público e pedir desculpas algumas horas mais tarde.
Claro que o tweet de #PéNaCova foi uma infeliz casualidade, pela qual nos desculpamos. Estamos solidários com as famílias de Santa Maria/RS.
— Rede Globo (@rede_globo) January 27, 2013
Por que e como as pessoas conseguem ser tão agressivas nas mídias sociais? A professora Raquel Recuero tem uma pesquisa referente as mídias e sociais e o ódio, que procura entender a violência e a agressividade que emergem em tragédias coletivas, como no caso de Santa Maria. Ela aponta, como um dos fatores que permitem as postagens de ódio, a sensação de anonimato e a distância, que faz com que o sujeito se sinta livre para declarações impensadas e inflamadas, pois sabe que não sofrerá sanção social.
Por outro lado, a solidariedade e a empatia foram a grande maioria das manifestações. Páginas corporativas começaram a disseminar mensagens de apoio, como foi o caso da Coca-Cola, que pegou elementos de seu logo, modificou para a cor de luto com os dizeres “Força Santa Maria”. A maior página de buscas do planeta – o Google – colocou em sua página uma fita preta simbolizando o luto.
Um dado interessante é que a página na web da Boate Kiss, assim como sua página no Facebook, foram deletados na tarde do dia da tragédia. Por volta de três horas da tarde fiz uma pesquisa e encontrei o site com os links para as redes sociais, cheguei a ver álbuns de fotos de noites anteriores à tragédia, com rostos jovens e alegres se divertindo; já eram muitos os comentários nos álbuns exigindo que os donos se apresentassem e postando palavras de indignação e dor; poucos minutos depois, foram deletados. Uma página fake no Facebook foi criada no dia seguinte, mas o seu perfil no Twitter ainda existe.
Positivo, ressalto, é o uso das redes sociais para organizar o voluntariado e as doações: uma página no Facebook foi criada e, por meio dela, os usuários começaram a organizar a ajuda vinda de todos os cantos do Brasil.
Em casos como estes, é possível ver o potencial da união dos cidadãos: apesar de toda a sensação de impotência frente a uma tragédia como essa, é grande a mobilização: doação de sangue, medicamentos, passagens para o local e hospedagem para os que estão envolvidos no cuidado com os feridos e com a família das vítimas, voluntariado de profissionais da saúde, enfim, a sociedade se une e se organiza, utilizando a internet como canal de comunicação (Saiba como ajudar as vítimas de Santa Maria).
Tenho certeza que ainda há um grande potencial não descoberto, no que se refere à utilidade das mídias sociais. É importante que mais estudos sejam conduzidos, a fim de que se possa explorar plenamente este potencial, não só para influenciar seres humanos como consumidores, mas integralmente, como seres pensantes e solidários, estimulando o espírito crítico e a empatia.
A todos que escolhemos a interessante e desafiadora carreira de Analistas de Mídias Sociais, que possamos sempre lembrar, em meio a dados quantitativos – números, métricas, “likes”, “shares”, “RTs” – que lidamos não só com a imagem de marcas, mas com seres humanos, suas expectativas e sentimentos. Que a pressão para atingirmos resultados e os prazos curtos não nos robotizem nem nos deixem insensíveis, pois, como somos terrivelmente lembrados por tragédias como a de Santa Maria, a vida humana é efêmera e inestimável.
Alex Camillo é estudante de Marketing e apaixonado por Mídias Sociais, desenvolvedor webfreelancer, desenvolve um blog pessoal , é um entusiasta da Tecnologia, leitor voraz, fanático pelo Fluminense, pela NBA e NFL, está tentando abandonar o “vício” em café e Coca-cola, em constante busca de Networking e Desenvolvimento Pessoal, e, por último, mas não menos importante, é casado, pai de família e uma pessoa muito feliz.